Segunda-feira gorda
- A cada três cervejas, a quarta é por nossa conta;
- Chope dose dupla a noite toda;
Pra começar a semana com o pé na jaca.
Terça do "petixco"
A cada cerveja, grátis uma mini porção (tapa) de qualquer petisco da estufa: ovo colorido, calabresa acebolada e conservas (pepino, salsichinha, cebola e azeitona).
Quarta do "fudibol"
A cada gol do seu time, uma cerva na faixa. Alguém da mesa tem que estar com a camisa do time e saber cantar o hino do clube.
Quinta do "vixque"
Todas os uísques com 50% de desconto, a dose.
Sexta fudeu tudo
- Todos os destilados com 50% de desconto, a dose;
- A cada quatro cervejas, a quinta é de graça;
- Petiscos 50% mais caros.
Sábado do "exquenta"
Todos os itens da sexta (exceto petisco - preço normal), até as 23h45.
Domingo do "fudibol"
Todos os itens da quarta, mais um pratinho de churrasco a cada cinco cervejas.
O churras é de graça. Não exija serviço de churrascaria.
Sabemos que sua profissão é estressante. Venha desestressar durante a semana e relaxar no "findi".
- Aceitamos todos os cartões;
- Cliente assíduo há mais de 3 anos pode ter conta (caderneta). Consulte o gerente;
- Banheiros com cabines equipadas com prateleiras (pra colocar suas coisas), canudos descartáveis (pra mastigar, esvaziar o copo mais rápido...) e cartões do bar (para não nos esquecer). Queremos que você beba muito;
- Private room para reuniões de negócio (temos contatos de várias strippers). Consulte disponibilidade;
- Disque desculpa (o seu "chefe" pode explicar para sua mulher o porquê de uma reunião na segunda demorar tanto);
- Nada de música ao vivo. No máximo um sambinha malandro, soul, 70's, blues e rocknroll clássico, tudo em um volume ambiente;
- Sem luz fluorescente, que lembra padaria ou supermercado.
E ai, quem vai?
Uma reunião de contos, crônicas e afins. Os nomes dos personagens são fictícios. As notas, nem sempre.
terça-feira, fevereiro 18, 2014
terça-feira, novembro 26, 2013
Catador de latinhas
Personagens
que tornam o boteco uma espécie de hospício sociável (às vezes não) e democrático.
O figura da vez é um pouco diferente. Ele é velho, manco, catador de latinha e
bróder de todos os habitantes daquele enclave etílico. Usa uma bengala e sua
feição varia entre o ranzinza e o brincalhão, com ressalvas. Sempre responde a
brincadeiras dos garçons com golpes de bengala.
Quando chega
no bar, o rapaz do balcão serve de pronto um vinho chileno, um bom, por sinal,
em copo plástico. Os três primeiros goles servem para degustar. Acende um
cigarro de palha e vira num só trago o resto da bebida.
Os garçons
começam a lhe importunar, fazer cócegas, derrubar as sacolas cheias de latinhas.
Quando ele ameaça com a bengala, os garçons saem correndo. Todos no bar dão
risadas com aquela cena. Uma versão nossa de Dr. House, mais criança do que
sarcástico.
Sempre paga
pelo seu vinho, não gostava de favores. Seres como ele são cercados de boatos e
causos. É comum aparecer histórias sobre o velho. Que ele era rico, que havia
sido escravo, que fora abandonado pela família, que sucumbiu à loucura após um
chifre...
Sei que
quando ele chega no boteco, todos sorriem por alguns minutos. Talvez seja seu
único momento de felicidade no dia. Até sorrir ele consegue, mesmo sendo
sacaneado (no bom sentido), catando latinhas, velho, manco e ranzinza. Parece ganhar o dia com
as brincadeiras dos garçons. E todos no recinto ficam felizes enquanto seu
sorriso dura.
domingo, setembro 08, 2013
Carro das onze
Eu até beberia mais,
Mas não posso ficar.
Sou filho único,
Tenho minha casa pra olhar,
E o trem das onze não vou pegar.
Vou dirigindo,
Tenho multas e prestação do carro a pagar.
Sei que estou errado,
Mas quem não está,
Nestes lados do trópico?
Eu até beberia mais,
Mas não posso ficar.
Vou dar uma olhada no Waze,
E torcer pro detran não me pegar.
Amanhã é segunda,
Eu até beberia mais,
Mas terei que trabalhar.
Quaiscalingudum?
Hoje não vai rolar.
Mas não posso ficar.
Sou filho único,
Tenho minha casa pra olhar,
E o trem das onze não vou pegar.
Vou dirigindo,
Tenho multas e prestação do carro a pagar.
Sei que estou errado,
Mas quem não está,
Nestes lados do trópico?
Eu até beberia mais,
Mas não posso ficar.
Vou dar uma olhada no Waze,
E torcer pro detran não me pegar.
Amanhã é segunda,
Eu até beberia mais,
Mas terei que trabalhar.
Quaiscalingudum?
Hoje não vai rolar.
quarta-feira, junho 12, 2013
A garota do flyer
Segunda é um bom dia para beber na Padaria Paulista. Pediu uma cerveja, ganhou um salgado: coxinha, pastel, linguicinha ou quibe. Como manda a tradição paulistana, fico sozinho no balcão acompanhando o noticiário na tv. São notícias de São Paulo, mesmo eu estando a mais de 3 mil km de distância de lá.
O bar é uma ironia ao modelo paulistano. Na Terra da Garôa, as padarias se transformam em bares. Pras bandas de cá, bar é bar, padaria é padaria. O dono do lugar, um baiano, resolveu homenagear a capital paulista com humor e ironia – talvez para descontar o tempo em que foi sacaneado em Sampa, como todos os baianos que vivem por lá.
Na parede atrás do balcão, há um mapa. O Brasil segundo os paulistas:
No cardápio, o virado à paulista vira “ôra mêo”. No banheiro, fotos de personalidades ilustram o espírito de São Paulo: José Serra (terra de gente simpática e hospitaleira), Lula (terra de operários italianos) e o Boça (malandragem paulistana).
Tudo isso em uma terra onde em padaria se vende pão. Para não confundir a clientela, baiano colocou na placa uma descrição, logo abaixo do nome do local: “Pão só pros sanduba loco, mêo. Aqui é um bar”.
Estou lá encostado no balcão. Puto da vida, porque um velho estava sentado em meu lugar, que fica já perto da porta de saída do bar – não me perguntem porquê aquele era meu lugar favorito, e o do velho também. Quando eu ocupo o lugar, é ele que fica no balcão lançando o olhar furioso.
Um vendedor de dvd aparece e quebra o clima bélico entre eu e o velho. Separei uns seis dvds, na esperança que o dono do bar me desse o dinheiro e descontasse em minha conta. Eu só estava com meu cartão de crédito. Baiano não gostou da ideia, disse que se fizesse isso teria que fazer o mesmo com qualquer outro que pedisse, e no fim ficaria sem troco. A mesma resposta de sempre.
Queria ficar com os dvds e propus para o vendedor pagá-lo outro dia, já que ambos viviam por lá. Um aperto de mão selou o acordo, e ele saiu. As horas se passaram e o bar se tornou menos vazio. Agora não era apenas eu, o velho e as moscas que ficavam nos pratos de salgados.
Chegou uma mulher, aparentemente comum. Só chamou atenção porque ela sentou sozinha e pediu uma cerveja. Legal a postura “tô pouco fudendo para o machismo”.
Desvio a atenção novamente para o movimento do local, que aumentou ainda mais. Minha observação foi interrompida por um garoto, que chegou distribuindo flyers. Me entregou um papel colorido com a foto de três mulheres nuas – show de stripper no Moscovita Night Club.
Há, danadinhas! Depois de conferir o flyer, meus olhos se voltaram automaticamente para a mesa da mulher solitária. Olhei por alguns segundos...Voltei a ver o flyer. A morena, do meio, pareceu familiar, não levando em conta o programa de edição de imagens. Fiquei por quase meia hora olhando para a mulher solitária e para o flyer. Quase certo que era a mesma pessoa.
Tive certeza quando o vendedor de dvds voltou para sentar com ela. Começaram a conversar. Ambos pareciam tristes, trocando confidências. Tinham rostos parecidos, irmãos? Apenas ela bebia, fumava sem parar, e ele a escutava prontamente, entre os dvds empilhados. Dvds piratas...vidas piratas e contraventoras.
Eu ainda devia os seis dvds. Ele não me devia nada, mas começou a desconfiar porque eu estava olhando demais. Deve ter achado que eu fosse cana. Se levantaram, ela entrou em um taxi e ele seguiu a pé. Eu fui para casa com ela em minhas mãos, ainda que no flyer.
sexta-feira, junho 07, 2013
Paulin Aviaozin
A todos de coração bom, em um mundo
sem coração. A todos que não foram o que poderiam ser. Aos que tentaram ser do
bem de forma errada, mas que ainda mantiveram algo de humano em seus corações.
A esses deve ser destinada a ala vip
do céu ou do inferno, a gosto deles, e não a gosto do dono da terra. Se não for
assim, que façam a revolução, caso desejarem.
Paulin e sua bicicleta em meio a um
bando de zumbis. Ele era um diplomata das ruas, ainda que fosse uma esquina de
rua (a esquina de um país inteiro). Endereço de um bar obscuro, com
frequentadores mais obscuros ainda. Seus clientes temiam o outro lado da cidade
e pediam para Paulin descer de bike o morro para pegar os pinos. Dez conto,
cada, mais cinco de comissão pro Paulin.
Era barato e o produto era razoável.
Se Paulin fosse pego pelos canas ou estraçalhado por um carro, foda-se ele.
Quem pensava isso?! Quando ele demorava muito, os clientes ficavam putos e
pensavam que os 15 ou 30 conto tinham virado crack, combustível pro avião.
Acontece que Paulin não vacilava nem
mesmo quando a viatura ameaçava pará-lo. Como uma criança brincando, ele seguia
calmamente seu caminho de volta ao bar. Devia ser coisa das guias de umbanda
que ele carregava no pescoço. Sei que o selo de garantia de serviço é
comprovado, não importa o prazo de entrega. Paulin só não garantia a qualidade
do produto.
Além de jovens com grana, Paulin
atendia prostitutas e um policial alcoólatra que aparecia no bar todas terças e
quintas. O dono do estabelecimento sabia de toda a movimentação, mas nunca deu
um basta no sistema porque também era cliente.
Alguns frequentadores do bar diziam,
sei lá, de brincadeira, que o dono do lugar era pai de Paulin. Esse era a razão
para o garoto nunca ser expulso de lá.
Paulin dizia que nunca tinha sido
apresentado ao pai. O dono do bar dava de ombros quando os clientes o apontavam
como pai do moleque. Suspeitas à parte, o velho permitia que Paulin usasse o
bar como boca.
O garoto sempre parecia estar de bem
com a vida. Sempre sorridente e atencioso, ouvia as histórias dos clientes e
ainda dava conselhos. “Hoje você não está legal, não vou vender nada.” Quando
algum problemático insistia, Paulin vendia placebo. O cara acordava com pouca
ou nenhuma rebordosa no dia seguinte e ainda falava: “Pô, aquele é do bom”.
Paulin não queria que sua clientela
fixa ficasse doente. Ele queria distribuir alegria, independentemente de ser
algo momentâneo e perigoso.
Entre uma venda e outra, contava
piadas, dançava no meio da rua e elogiava as garotas. Aquela era sua família,
seu auge. Contava as horas para o anoitecer, quando podia espalhar sua alegria,
com sorriso, dança e pó branco.
Era mais uma terça-feira sem
movimento. Nem o policial alcoólatra apareceu. Dentro do bar, apenas quatro ou
cinco pessoas.
Paulin estava na parte de fora,
encostado num muro próximo à entrada do bar. Três caras armados entraram
perguntando pelo dono do inferno.
O velho estava devendo alguns
traficantes e sua hora de pagar era aquela. Antes de ele se identificar como
dono do lugar, um dos caras disparou em sua direção. Paulin observou o
movimento saltou na frente do atirador. Tentativa frustrada de virar herói.
Serviço feito, os caras saíram sem
nenhuma pressa. Enquanto deixavam o local, Paulin gritou que estava juntando
dinheiro pra pagar a dívida do agora defunto. Se tivessem escutado aquilo,
levariam o moleque para pegar a grana e depois o matariam. Foi sorte.
Dias depois, mais enfurecida do que
de luto, a viúva encontra Paulin para falar que ele era o mais novo dono do
bar, não com essas palavras. “Você era o único filho dele e só agora eu
descubro isso?! Acha que eu vou sair de mão abanando, né? Vou pra justiça, meu
fí!”
Paulin cagou pra velha. Pensou
inicialmente em voltar pra casa da mãe. Mas não havia mais casa, tampouco ele
sabia onde estava a mãe. Uma vez ela disse que seu pai era um argentino
dançarino de tango, que trabalhava na casa mais famosa de Buenos Aires. Sem
mais nada que o prendesse por aqui, Paulin pegou o que tinha de dinheiro e foi
de carona num caminhão para a Argentina.
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