Domingo, Outubro 22, 2006

Salada de fruta – Parte 3

Como sempre nada para fazer no domingo. Até que consegui acordar cedo. Não havia nada de bom em casa e decidi descer até o mercado central. É uma espécie de feira. Lá, há de tudo: frutas, legumes, putas, raízes e temperos, comidas típicas, jogos de carta e dominó, além de cerveja e cachaça.

Resolvi começar o dia com um cozido de miúdos de porco e uma cerveja, só para animar. Antes do prato chegar e de pedi a segunda cerveja sai em busca de um local para dar uma mijada, a primeira do dia, ótimos 35 segundos em algumas coisas de papelão.

Pedro agora vive nas ruas. Deve ter acordado com o barulho do mijo e se levantou dentre as caixas. Convidei-o para um desayuno.

Pediu dois pastéis de carne e um refresco e começou a me contar suas aventuras. Ele estava no mundo do crime, mas era algo leve. Arrombava caixas de telefone e de energia para roubar fios de cobre. Vendia o material para alguns recicladores e donos de ferro velho. Conseguia assim comer alguma coisa.

Mas morria de medo de ser eletrocutado. Muitos já morreram nesse negócio. Acho que já escrevi alguma matéria sobre isso.

Ele estava no ramo dos cobres a pouco mais de um mês, desde que fugiu de casa. Não deu satisfação para ninguém, não deixou carta alguma. Saiu com a roupa do corpo e uma chave no bolso. Sabia que seria roubado por meninos de rua mais veteranos caso levasse alguma bagagem. A chave era de casa, para fazer algumas visitas quando a coisa apertasse. Pegar alguma roupa ou comida. Pedro sabia quando a casa ficava sozinha e podia dar uma chegada até lá sem encontrar ninguém.

Disse que cheirava uma colinha de vez em quando, para vencer a fome. Mas não gostava dos efeitos colaterais. “É ruim demais. Dá dor no estômago. A cabeça parece que fica oca e dá tontura também. Fico escutando um monte de barulho”.

Antes de ir para as ruas, Pedro pensou em ir para a casa da avó. Só assim fugiria das porradas do seu padrasto. Mas a velha morreu e para Pedro restaram a cola e os cobres .

Perguntei sobre suas anotações. Ele disse que no início andava com elas, antes da chuva destruir parte de seus cadernos. Desde então havia desistido de escrever.
A conversa estava boa, mas ele teve de ir. Falou que ia dar uma passada em casa. A mãe e o padrasto estavam no parque vendendo saladas de fruta. Agradeceu pelos pastéis e foi embora. Eu fui jogar uma partidinha de dados, apostado.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

O vendedor de amendoins

Lendo uma nota policial no jornal descobri que Dionísio, o nosso vendedor de amendoim, está preso.

“ O vendedor de amendoim, Dionísio F.J.S., 53, foi preso em flagrante ontem no centro histórico da cidade com cerca de um quilo e meio de cocaína. [...] Há dois meses Dionísio era investigado pela polícia, após denúncia anônima. [...] Juntamente com os amendoins, Dionísio vendia a substância ilícita em pontos turísticos e em bares da cidade”.

Agora está explicado como o velho conseguia sustentar a família e pagar a faculdade do filho. Hehehe...

Quarta-feira, Outubro 04, 2006

From Bulgaria with Love

Muito Calor. Nem animo sair de casa. A cada duas horas entro debaixo do chuveiro para refrescar. Tenho umas cinco latas de cerveja no congelador e acho que vai dar para agüentar até o fim do dia.

Da janela dá para ver as pessoas cozinhando no sol escaldante lá fora. O asfalto parece borbulhar e a fumaça dos ônibus velhos escurece o ambiente. Um caos. Estava pensando em dar uma viajada, mas tenho medo de então perceber que as pessoas são iguais em todos os lugares. Aqui pelo menos eu não gasto muito.

Pensei em ligar para algum velho amigo ou amiga, mas não têm ninguém disponível. Alías, há anos não falo com eles. O jeito é esperar a noite chegar e então dar uma volta com minha gaiola na mão. Até lá vou arranjando algo para fazer.

Não tenho mais saco para a leitura. Mato o tempo entre uma vasculhada nos canais da tevê a cabo e uma navegada na internet. Acho que não viveria sem essas maravilhas do mundo moderno.

Quando não estou me perdendo nos sites pornôs converso com um músico da Bulgária em um programa de bate-papo. Só assim utilizo meu velho e desgastado inglês, resquício de alguns anos vivendo em Londres.

(É engraçado ver as pessoas daqui ainda insistindo em aprender o idioma de Shakespeare. Hoje, todos os currículos profissionais têm ao menos um “Noções básicas de inglês” ou “Inglês intermediário”. Para que? Geralmente, esses empregos que pedem “conhecimentos de inglês” são aqueles em que o funcionário nunca terá a oportunidade de sequer falar um mísero “hi, how are you?”. Os manuais de eletrodomésticos já vêm traduzidos para a nossa língua. O jeito mesmo é nos mostrarmos cool e civilizados batendo papo na internet com alguém da Bulgária ou das Ilhas Faroe).

Do outro lado ele me conta as maravilhas da Bulgária e eu faço alguma coisa daqui parecer interessante enquanto vou traduzindo os pensamentos para o inglês. A última dele:

- Man, you should visit Sofia (a capital de lá) during the summer. The chicks wear their best miniskirts, tinnie cloathies and stuffs. Its nice to see their humps and butts. They look like so hot.

E eu digo:

- Yeah! Here I see these things everytime, in every season. You know, girls from the Tropicos.

E ele sempre termina dizendo que vai me fazer uma visita, “just to check these tropicalian chicks”.

Cada um fala sobre o seu respectivo cotidiano, às vezes eu até invento algo só para a vida parecer mais interessante. Mas geralmente é ele quem fala mais. Várias histórias de suas aluninhas búlgaras. Ele dá aulas particulares de cello.

As garotas conhecem sua fama e o procuram, não importa se levam jeito com a música. Acabam descobrindo outras aptidões, hehe. A última delas, Maria, apareceu vestindo uma camiseta com a frase Dirty girl.

“She was too shy and pure to wear that t-shirt”.

Hristo perguntou se ela sabia o significado daquela frase. A garota disse que ganhou a camiseta de um primo que morava nos Estados Unidos. Achou legal a frase em inglês, mas não sabia o que aquelas palavras diziam. Hristo as traduziu (garota suja, devassa, safada).

Mas de dirty aquela menina não tinha nada. O músico ainda pensou que ela iria passar a odiar a camiseta. Então poderia tirá-la e ver os seus seios. Mas Maria provavelmente lembrou de algumas risadas que ela encontrou nas ruas e saiu correndo, chorando, do apartamento de Hristo.

Depois de conhecer tantas dirty girls “interessadas” em cello, o músico não parava de rir e de se lamentar com a história. “ Come on man, that t-shirt was a fake ad. I should issue her”, e digitava “hahahaha” sem parar.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Tudo que você queria saber...

...mas nunca perguntou para:
O vira-lata de rodoviária
Nome: Não identificado
Idade: Aproximadamente 7 anos
Ocupação: Desempregado, autônomo, caçador...
Aonde encontrar: Rodoviárias***

Fácil de se encontrar nas rodoviárias*** do interior e das grandes cidades. Está sempre à espera de alguma guloseima. Costuma andar sozinho ou acompanhado de outros da mesma espécie. Ele é o cão vira-lata de rodoviária***.

Seu dia-a-dia é tranqüilo, porém nunca foi o dos melhores. Fome, pulgas e fumaça dos ônibus são algumas das adversidades. Em todas as rodoviárias*** pelas quais passei sempre encontrei ao menos um deles. O último resolveu me conceder essa entrevista:

Eu: Vamos lá. Como se chama?
Ele: Não sei. Cachorro?
Eu: Eu sei, digo...o seu nome.
Ele: Ah, essa história de nome é coisa de humanos idiotas. Nunca tive dono, nunca tive nome. Ou melhor, já tive o senhor Freitas... lá no sítio. Mas ele me chamava de cachorro, ou de vagabundo.
Eu: Ok, pelo jeito você já teve um lar. Mas desde quando você vive na rodoviária***?
Ele: Não sei, há muito tempo. Mas não iria adiantar nada eu te responder. Não tenho a mesma noção de tempo que vocês humanos têm.
Eu: Como assim?
Ele: Sei lá, costumamos lembrar muito pouco do dia anterior. Vivemos menos que vocês mas não temos essa coisa idiota que vocês chamam de horas.
Eu: Hum... ok. Mas, e ai? O que vocês fazem para passar o tempo?
Ele: Nada. Espero algum idiota jogar comida. Quando aparece alguma cadela eu dou uma lambidinha na buceta dela...cadela..buceta dela..rimou, sacou?
Eu: Cara, que saco. Não mais nada que fuja essa rotina?
Ele: E você acha que a vida de vocês humanos é muito divertida, ne? Estudar, trabalhar, comprar um carro, uma casa e ter filhos. Isso que é uma chatice, cara.
Eu: Humm.. ok. Mas, você tem medo de alguma coisa?
Ele: Ah, acho que só do canil mesmo. Dizem que é foda, que todos de lá não possuem mais esperança. Nunca serão adotados por algum humano.
Eu: Mas, é bom ser adotado por um humano?
Ele: Ah cara, é igual aquele negócio que vocês chamam de paraíso. Ninguém sabe se realmente vai ser bom, mas todo mundo quer ir pra lá. Eu não acredito mais nessa merda. Prefiro ficar aqui na rodoviária***. Você, por exemplo, me adotaria? Somos pulguentos, temos doenças, somos feios, vira-latas e não fazemos nada.

Alguns segundos em silêncio

Ele: Me desculpa cara, mas agora vou dar uma cagadinha e procurar minha janta. Você deve ser um daqueles jornalistas honestos que não compram suas fontes com comida, certo? Estou indo, até mais.
Eu: Ok, eu não tenho dinheiro... Até mais.

Voltei para o ônibus morrendo de sono.
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*** Qualquer categoria de rodoviária, às cinco horas da manhã, além das assombrações, é sempre lúgrebre e melancólica. As misérias do mundo e do dia-a-dia predominam nos diálogos e principalmente nos monólogos que são sussurados por ali. Há sempre nelas um taxista sonâmbulo, um policial disfarçado, um sanitário com aquele cheiro adocicados de bagos de jaca, algumas prostitutas decadentes que não conseguem mais clientes [...] dois ou três andarilhos ou mendigos mijados, cheios de piolhos enrolados em cobertores e estirados nos bancos. Quem viaja sabe que uma rodoviária, além de servir de dormitório, também é um lugar quase sagrado para os miseráveis e outros sub-produtos do capitalismo cristão. [...] Um vigia noturno aqui, um bêbado acolá, o motor de um caminhão sendo esquentado, alguns cães focinhando as lixeiras e um homem insone debruçado no vão de uma janela de ferro que tenta adivinhar minha procedência e meu destino. (EZIO FLAVIO BAZZO, em Entre os gritos do carcará e a desfaçatez da raça humana, págs.: 31 e 32.)