Segunda-feira, Novembro 27, 2006

Caras durões

Um negão forte de mais ou menos dois metros de altura entra no bar e senta em um dos bancos do balcão. Seus olhos pareciam estar mergulhados em sangue. Pede uma cachaça. “Qual?” “Qualquer uma”. Cardoso, o balconista, não se conteve e comentou comigo: “É chifre, quer ver só?!”

- Qual foi o problema, amigão?

E o negão desaba a chorar, como se fosse uma criança.

- Ele não podia ter feito isso comigo. Eu fiz tudo por aquele vagabundo, o tirei da sarjeta e ele me trai logo com aquela vaca. Desgraçado.

O bar ficou em silêncio para escutar o negão. Sem saber o que dizer, Cardoso solta um: “Isso acontece, amigão”.

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A noite vai se aproximando e os primeiros sinais de embriaguez começam a aparecer. Um cara cai do banquinho, se levanta e debruça no balcão. “É assim pelo menos uma vez na semana. Daqui a pouco aparece o filho para resgatá-lo”.
O garoto chegou por volta das nove. Viu o pai estirado no balcão e se sentou na minha mesa.

- Você tem quantos anos? – Perguntei
- Nove.
- E veio pegar seu pai?
- Foi.

Então o garoto se levantou e pegou um limão no balcão. Voltou e começou a lamber o limão.

- É azedo. Você quer um pouco?
- Não, garoto. Obrigado. Ei, você é um cara durão, sabia?
- É?
- É.
- Mas o limão vai ficar melhor se você o espremer em um copo com água. O Cardoso deve ter açúcar.

O garoto tomou sua limonada e esperou o pai dar um sinal de vida. O velho se mexeu lá pelas onze. O garoto foi até ele, pegou sua mão e saiu arrastando o velho.

Terça-feira, Novembro 14, 2006

“Nada de dar água, viu Cardoso?

Quatro horas da tarde e o bar do Cardoso ainda estava fechado. Já estava por lá mesmo e resolvi esperar as portas se abrirem. Poderia ir para outro lugar, mas eu tinha conta naquela espelunca.

O Paulo chegou e resolveu esperar comigo. Ele também tem conta no boteco e aparece todos os dias por lá. Esgotamos rápido o assunto e nada do Cardoso abrir o bar. Quando já estávamos desistindo ele apareceu. Entramos rapidamente e alguns segundos depois estava tomando minha cerveja.

Não demorou muito para que as velhas figuras aparecessem. Algumas novas e sebosas também, um garoto de rua que entrou e pediu um copo com água para o Cardoso. Comprou um cigarro e me pediu o isqueiro emprestado. Merda, sempre atraio esse tipo de gente. Olhei duas vezes para aquelas mãos imundas. Tinha uns restos de comida que parecia ser vômito. Olhei para a cara dele, para as mãos novamente...mas acabei emprestando o isqueiro.

Quando ele saiu, peguei um pedaço de guardanapo e limpei “aquele artefato de várias cabeças fosforóficas”, como diz um louco amigo meu. Apesar do sol, havia começado a chover. “São Pedro não sabe o que quer da vida. Que merda”, observou Arnaldo, soltando sua primeira pérola do dia. Ele é um policial que sempre toma no balcão.

Pedi mais uma cerveja e me levantei para ir ao banheiro. O cheiro de creolina daquele cubículo com privada cura a bebedeira de qualquer um. O odor sobe pelas narinas e queima tudo. Nem as baratas devem resistir. Nunca vi nenhuma por lá. E todo boteco que se preze tem algumas baratas.

Saio e encontro todo mundo de pé, olhando para a rua. Vou dar uma conferida e há mais pessoas em pé do lado de fora. Dois caros de polícia e os policiais levando cinco garotos de rua para dentro das viaturas. O seboso do isqueiro também estava sendo recolhido.

“Os populares” – sempre achei legal expressão - começaram a bater palmas e eu ainda estava sem entender aquela história. “Os moleques estavam sondando a padaria para assaltar. Vai ver o dono deve ter chamado os policiais”, sugeriu o velho Anísio com um saco de pão na mão. As viaturas arrancaram cantando pneu para finalizar o espetáculo.

Todos voltaram aos seus lugares. O Arnaldo começou um discurso que deixaria qualquer extremista de direita de cabelo em pé. “Tem de exterminar toda essa cambada. Nada de dar água, viu Cardoso? Nada de direitos humanos! É po isso que eu prefiro a ditadura de antigamente. Tem mais é que fuder com esses vagabundos. Eu trabalho desde os 10 anos. Essa história de não ter emprego é coisa de vagabundo. Democracia em país de terceiro mundo não funciona. Liberdade é o cacete. Tem que matar esses pobres. Não sei por que libertaram esses negros da senzala”, e quase todos concordaram, inclusive dois senhores negros.

Eu fiquei calado e acendi um cigarro. Discutir política com um policial bêbado e armado não é uma coisa muito aconselhável. Aliás, dane-se tudo isso. Todos estão repletos de palpites, teorias e idéias “magníficas”. Até os políticos. Politicamente correto ou incorreto, a coisa sempre foi e sempre será essa mesma merda.

Quarta-feira, Novembro 08, 2006

O louco do caminhão

Lopez, o louco do caminhão de lixo. É como ele é conhecido nas vizinhanças de Ponto Cruz. Foi por lá que há cinco anos ele agrediu o filho de um coronel. Lopez era policial na época e o filho do coronel era um maconheiro arruaceiro, segundo Lopez.

As bordoadas renderam à Lopez a expulsão da polícia. O caso saiu até nos jornais. Mas Lopez disse que a história não foi contada corretamente. “Cara, parece que só ouviram a versão do filhinho do coronel”.

Ele diz que é filho de pais ricos, que trabalham para o governo. Mas ele mesmo nunca pediu um tostão para os pais. Decidiu seguir seu próprio caminho. Realizou um sonho de infância e se tornou policial.

Gostava da farda. Mas o filho de um outro cara que também gostava de fardas arruinaria o seu sonho mais tarde.

Lopez patrulhava as redondezas de Ponto Cruz quando avistou o rapaz fumando maconha e insultando as garotas que passavam pela rua. “Ô gostosa...” – Elas não olhavam e o rapaz continuava: “Sua piranha convencida”. Lopez apareceu e advertiu o jovem, que partiu para cima do policial. “Dei lhe umas porradas com gosto”, lembra o caminhoneiro.

Ficou desempregado durante um ano e graças ao irmão conseguiu um emprego de motorista de caminhão de lixo. Hoje, toda vez que Lopez aparece em Ponto Cruz acelera o caminhão, arranca alguns retrovisores e ameaça todos os carros pequenos que aparecem em sua frente.

Sabendo do comportamento de Lopez, seu irmão e às vezes companheiro de jornadas no caminhão de lixo o pede o volante todas as vezes que estão se aproximando de Ponto Cruz. Quando Lopez não está com seu irmão o caos é total. “Cara, coloco um Dead Kennedys no som, acendo um cigarro e saio acelerando. Você deveria vir qualquer hora”. Assim foram as duas últimas visitas do caminhão de lixo ao bairro.

Não encontrei o filho do coronel para ouvir a outra versão do caso. Só para descontar. Mas o estrago já foi feito. E continua sendo feito, agora na boleia de um caminhão.

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

O encanador canibal

O prédio está sem água desde às 6 da manhã. Os encanadores mexem em uma coisa ou outra, trocam peças, andam pelos corredores com seus macacões sujos e carregando chaves inglesas...Mas até agora não resolveram porra nenhuma.

E a cada hora sem água os moradores ficam mais loucos ainda, inclusive eu. O apartamento está em estado deplorável, fedendo a merda e a urina acumulados no vaso à espera de uma descarga messiânica. Preciso urgentemente de um banho. O dia está um forno.

Dou várias voltas pelo apartamento. Entro no banheiro, abro a torneira, o chuveiro, tento dar descarga e nada da água. Fico desesperado e desço para acompanhar o serviço dos encanadores. Todos estão parados, fumando, dando gargalhadas e batendo papo. Dizem que estão aguardando a chegada de uma peça para concluir o serviço e voltam a conversar entre eles. Decido ficar lá perto e acompanhar a conversa – o que era tão divertido?

- Não! Conta essa história direito, rapaz? Você é canibal? Como é que pode comer seu semelhante? – perguntam para um encanador baixinho.
- Rapaz, eu estava no meio do mato, não tinha mais nada para comer.
- Mas você não tinha falado que estava em um restaurante? Lá não tinha outra coisa para comer? Um arroz, um feijãozinho, um ovo? Só macaco, homi? – questionou um terceiro.
- Mas homi, eu tava no meio do mato, morrendo de fome. Comi mesmo. Eu e todo mundo que tava no ônibus.

E todos caem em gargalhadas. A simplicidade e o nervosismo para se explicar o motivo de ter comido o macaco. E o encanador canibal continuou...

- Rapaz, na fome e na necessidade a gente come é de tudo. Já comi cobra, lagartixa, formiga, cobra, porco espinho. Só não comi tamanduá. Dizem que é bom, mas eu não tenho coragem.
- Cabra, você já comeu tudo isso e ainda tem pena de comer tamanduá? Do pobre do macaco você não teve pena, ne?
Mais gargalhadas....


- E não mude de assunto.
- Porco espinho? Como você tirou os espinhos dele? Não seria aquele porco do mato?
- Era rapaz, acho que era mesmo – respondeu o canibal.
- Se foi realmente porco espinho tem uma vantagem. Depois de encher a pança o canibal ainda palitou os dentes.
- Hahahahahahahahahaha......................
- Não...não mude de assunto. Quero saber desse canibalismo. A carne era boa, pelo menos?
- Eu não lembro mais. Sei que não sobrou nada.
- Nem a cabeça do pobre do macaco?
- Ouvi dizer que na Índia eles comem cérebro de macaco – comentou um outro.
- Não, não. A cabeça a gente jogou no mato.
- E você, tem coragem de comer macaco? – perguntaram para mim.
- Rapaz, eu prefiro um ovo frito – respondi.
- É, eu também! – emendou o canibal.
- Sei....ovo de macaco, ne?
- Hahahahahahahahahaha.


Chega de toda essa merda de macacos. Decido dar uma saída para tomar uma cerveja.

Retorno no início da noite e os encanadores estavam mais ativos, trabalhando para irem para casa o mais depressa possível. Entro no apartamento e corro direto para o banheiro. Abro a torneira, o chuveiro, dou uma descarga e nada da água. Vou assistir tevê e acabo pegando no sono. Acordo às duas da madrugada, ensopado de suor e vou cambaleando para o banheiro.

A água finalmente havia chegado. Mas é tarde demais para tomar banho. Perderia todo o sono. Dou três descargas no vazo e sigo direto para a cama.