Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

Boloja sabe o que quer

Hoje eu encontrei o Boloja. Não me perguntem aonde ele arrumou um nome desses. Era albanês, algo assim. Ele estava diferente. Mais animado, sorridente, seguro, com a cabeça erguida, essas coisas.

- Ei cara, as coisas parecem estar boas, heim?
- Sim, sim. Estou reaprendendo a viver. Viver sem ser um bundão.
- Ah é? E como está se saindo?
- Bem, bem. Sabe que esses dias eu dei porrada em um aleijado? O cara estava lá, na minha frente, atrapalhando meu caminho. E eu estava apressado, mas aquele maldito aleijado continuava na minha frente. Foi quando eu pensei em dar um cruzado de direita no cara. Nunca havia brigado antes, dado um murro em ninguém. Só apanhei algumas vezes.
- E ai?
- E ai não pensei duas vezes, como dizem. Fechei o punho e pensei apenas uma vez. E dei meu cruzado de direita. Foi um bom golpe. O cara perdeu o equilíbrio das muletas e caiu. Fiquei olhando o sangue escorrer da boca. Foi uma sensação muito boa. Algo bom para o meu plano, o de não ser mais um bundão.
- Boloja, você acha que é um cara durão só porque bateu em um aleijado?
- Não cara. Sei que isso é mínimo. Mas hoje em dia esses caras se sentem ofendidos quando são chamados de aleijados. Temos de trata-los como pessoas normais, certo? E além do mais há coisas mais importantes no meu plano.
- Quais? Bater em velhinhas também?
- Dmitri, para você deixar de ser um bundão você tem de viver na miséria, sem nada. Depois disso você tem de saber o que querer da vida.
- E o que você quer da vida?
- Ainda estou trabalhando nisso. Mas penso em dirigir um trator ou virar caçador. Talvez os dois.
- Cara, você pirou de vez.
- Não. Pela primeira vez estou sabendo o que quer da vida.

E saiu rindo como se realmente estivesse louco.

Terça-feira, Dezembro 12, 2006

Mentes brilhantes

Nossas mentes brilhantes estão espalhadas pelos botecos da cidade. É o velho sentado sozinho no canto do balcão, tomando sua cerveja e lendo o jornal. Ou é o grupo de quatro amigos que falam sobre a história da América Latina, enriquecimento de urânio, pesquisas em nanotecnologia ou os perigos e mistérios da mente feminina.

O grupo de amigos se cala por um instante. O cabeludo retoma a conversa dizendo que a Índia é o futuro da humanidade.

- Cara, o mundo será tão caótico, sujo, superpopulado e organizado em castas. Tudo como a Índia. Haverá religiões estranhas, o povo irá adorar até os ratos. Terá uma pequena minoria com grana e a grande maioria será de miseráveis. Um dia vou escrever algo sobre isso.
- Vão te chamar de eugenista e preconceituoso – lembrou um baixinho de óculos.
- Que se dane!
- É, de qualquer forma é uma teoria interessante – concordou o baixinho.

Aparece um mendigo no bar. Sem dúvida o mais sujo e grotesco de todos. A cara dele parecia estar suja de bosta ou de qualquer outra substância orgânica dos esgotos. Inacreditavelmente, seu suéter preto estava limpo. Ele vai até a mesa dos quatro amigos e pede alguma moeda. Não consegue nada e vai embora.

O cabeludo comenta algo: “Lá se vai um cidadão do futuro. Só faltou ele ter um chip implantado atrás da orelha. Daqueles que liberariam alguma dose de droga sintética ou que recriaria um simulacro, um paraíso dos mendigos”.

Todos da mesa riram e silenciaram em seguida. Foi então a vez do garoto de cabeça raspada, já meio embriagado, bolar sua teoria.

- Foda-se a Índia e a geopolítica. Foda-se a ciência. Tudo se resume à putaria. A vida é uma putaria. Você estuda para conseguir um bom emprego e levantar uma grana para a sua putaria. Se você não é uma pessoa prática vai cair nessa putaria de amor, de constituir família. Isso irá durar até você quebrar a cara, até sua mulher te deixar. Então você irá descobrir que só retardou o caminho da verdadeira putaria e lembrará da velha equação: estudo + emprego x dinheiro = putaria. Beber com os amigos e ver alguns traseiros. Pagar umas vagabundas, transar com a mesma mulher no máximo duas vezes e depois coloca-la para correr.
- Terminou? – perguntou o cabeludo.
- Sim, porque?
- Então brindemos a putaria.
- Urra!

Terça-feira, Dezembro 05, 2006

Bruto como nós

No telefone, o pequeno Pedro, 8 anos, reclama com o amigo de seu pai:

- Tio, por que o senhor não vem mais aqui?
- Calma amiguinho. Você já vai assim cobrando? Tem de cumprimentar primeiro.
- Mas tio, o que é cumprimentar?
- É você falar: “Oi, tudo bem? E a família, como vai?”. Mesmo que você não queira saber como vai realmente essa pessoa, os seus problemas...
- Ah tio, que merda isso. Vai se fuder, eu quero falar o que eu quiser.
- Ok.

O amigo do pai de Pedro se chamava Casanova. Era um velho bondoso, sempre se dava bem com crianças. O seu filho já estava grande demais. Descobriu Pedro enquanto visitava o seu pai para tratar de negócios. O pai de Pedro era um fazendeiro, bruto e com alguma grana. Pedro também era bruto, crescera na fazenda e tinha os pés calejados. Mas ainda nem sabia o que era grana.

Casanova ficou amigo daquela família. E já estava em falta, fazia um bom tempo que não os visitava. Saiu do emprego mais cedo, comprou um carrinho de controle remoto para Pedro e ligou para a esposa avisando que iria para o interior. Ela, às vezes, estranhava isso. Achava que o marido, na verdade, iria era para a putaria.

A família de Pedro recebeu Casanova com festa. Pedro era o mais eufórico, com o seu carrinho de controle remoto. Assaram pernil e prepararam várias comidas típicas do interior. Enquanto o jantar não saia se reuniram para conversar.

Isadora, a irmã de Pedro, um ano mais velha que ele, comenta:

- Olha, o porquinho ta cheirando a buceta da porcona. Mais coitado, ele é tão pequeno, nem vai conseguir.
- Pequeno? Mas o pau dele é maior que o meu. Olha lá, ele vai é fuder ela – analisou Pedro.
- Olha os palavrões, meninos – brigou a mãe.

Casanova se assustou com aquilo. Mas depois lembrou que sua infância bruta no interior não era tão diferente. Aos 10 anos, traçava galinhas, cabras e até buracos na terra.

A mãe de Pedro começou a contar a última aventura do filho. Cansado de ser mordido por um pequeno poodle, presente do pai, Pedro resolveu contra-atacar. O garoto mordeu o pescoço do cachorro, que teve de ser levado às pressas ao veterinário. Casanova reparou o curativo no pescoço do poodle e começou a rir. “Esse menino não é brincadeira”, dizia a mãe.

Pedro ficava no canto da sala, sempre atento à conversa dos adultos. Longe da vista do pai, que não gostava de ver o moleque metido em conversa de adulto, Pedro perguntava para Casanova: “Tio, o que é corrupção? Tio, o que é picareta? Tio, o que é governo?”. Casanova respondia tudo, sem saber se era entendido pelo garoto. Pedro apenas ficava de cabeça baixa, escutando tudo atentamente.

A conversa de adulto continuou. Casanova falou algo sobre prisão de ventre. Antes de irem para o jantar, Pedro perguntou mais coisas: “Tio, o que é trono? E o que é rei? E por que colocar força para cagar? É o cú que é pequeno demais?”.

Semanas se passaram. Casanova recebe um telefonema no emprego. Era a mãe de Pedro. Dizia que o garoto estava deprimido. Não comia nada há dois dias. O carrinho de controle remoto havia parado de funcionar.

- Seu Casanova, o Pedro não está acostumado com esses brinquedos. Ele é bruto como nós. Acho que foi ele quem quebrou o carrinho. Ele estava implorando para que o senhor consiga um mecânico para consertar o carrinho. Pode?
- Ok, deixa eu falar com ele.
- Alô, alô...
- Quem é?
- Aqui é o mecânico.
- Mecânico o caralho. Eu sei que é você, tio. Vem aqui arrumar essa porra agora. Essa merda não presta.

À noite, Casanova partiu novamente para o interior. Viu que era apenas um mau contato no controle remoto do carrinho. Consertou e a alegria foi geral.

Dias depois Pedro destruiu o carrinho. O poodle havia mordido o brinquedo, talvez para se vingar da mordida que recebeu no pescoço. A pintura vermelha ficou arranhada. Pedro se revoltou e pisou...pisou... até destruir o carrinho.

Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

Não me peça para consolar ninguém

Foi o porteiro que me avisou sobre a morte de Sandra. É impressionante como os porteiros são os primeiros a saber de certas coisas.

- Rapaz, você ficou sabendo, ne?
- De que?
- Da Sandra, rapaz...
- E o que tem ela?
- Morreu dormindo. O Celso está arrasado.
- Humm...

E sai. À noite, encontrei o Celso no elevador.

- Boa noite...
- Boa.
- Vai ver o jogo hoje?
- Acho que não.

Não consegui falar mais nada. Poderia ter dito algo como “Minhas condolências” ou “Que tragédia cara. Como você está?”. Não é isso que o pessoal diz? Mas não saiu nada. Nunca sai nessas situações.

Mas talvez a melhor forma de enfrentar a morte seja apenas dar boa noite em um elevador. O mesmo serve para os outros problemas, dor de dente, demissão, impotência, separação...

Não se trata de insensibilidade, mas muita gente deve pensar o contrário. Há algum tempo cumprimentei um amigo que chegara de viagem. Havia ido enterrar a mãe no interior.

- E ai cara, como vai? E a viagem, como foi?
- Foi boa, cara. Muito boa.

Quando me toquei da pergunta aparentemente cretina ele me convidou para tomar uma cerveja. Falamos sobre futebol, mulheres, campeonatos de sinuca. Nenhuma palavra sobre a mãe morta do cara. Foi legal.

Mas a nossa sociedade adora os mortos, adora lamentar os problemas. Há até um feriado para lembrar que já está à sete palmos. Veneram um cara morto e pregado em uma cruz. Sempre migalham por alguma palavra de conforto. Não sei quanto ao Celso. Próxima vez vou convidá-lo para algumas cervejas e descobrir.