Boloja sabe o que quer
Hoje eu encontrei o Boloja. Não me perguntem aonde ele arrumou um nome desses. Era albanês, algo assim. Ele estava diferente. Mais animado, sorridente, seguro, com a cabeça erguida, essas coisas.
- Ei cara, as coisas parecem estar boas, heim?
- Sim, sim. Estou reaprendendo a viver. Viver sem ser um bundão.
- Ah é? E como está se saindo?
- Bem, bem. Sabe que esses dias eu dei porrada em um aleijado? O cara estava lá, na minha frente, atrapalhando meu caminho. E eu estava apressado, mas aquele maldito aleijado continuava na minha frente. Foi quando eu pensei em dar um cruzado de direita no cara. Nunca havia brigado antes, dado um murro em ninguém. Só apanhei algumas vezes.
- E ai?
- E ai não pensei duas vezes, como dizem. Fechei o punho e pensei apenas uma vez. E dei meu cruzado de direita. Foi um bom golpe. O cara perdeu o equilíbrio das muletas e caiu. Fiquei olhando o sangue escorrer da boca. Foi uma sensação muito boa. Algo bom para o meu plano, o de não ser mais um bundão.
- Boloja, você acha que é um cara durão só porque bateu em um aleijado?
- Não cara. Sei que isso é mínimo. Mas hoje em dia esses caras se sentem ofendidos quando são chamados de aleijados. Temos de trata-los como pessoas normais, certo? E além do mais há coisas mais importantes no meu plano.
- Quais? Bater em velhinhas também?
- Dmitri, para você deixar de ser um bundão você tem de viver na miséria, sem nada. Depois disso você tem de saber o que querer da vida.
- E o que você quer da vida?
- Ainda estou trabalhando nisso. Mas penso em dirigir um trator ou virar caçador. Talvez os dois.
- Cara, você pirou de vez.
- Não. Pela primeira vez estou sabendo o que quer da vida.
E saiu rindo como se realmente estivesse louco.