Quarta-feira, Agosto 30, 2006

Salada de fruta


- Tá fresquinha a salada de fruta?
- Na verdade, não tá não, senhora.


A banca ficava perto do ponto de ônibus do bairro. Antes era apenas um cara mais velho e mal encarado que tomava conta do local. Nunca havia visto aquele garoto por lá.

O vendedor ambulante mais sincero que vi, hehe. Ao ouvir sua resposta, me aproximei para uma conversa. Seu nome era Pedro. Ele estava lá substituindo o padrasto. Toda vez que o cara exagerava na bebida acordava com ressaca no dia seguinte e indisposto para o trabalho. Pedro faltava o colégio para ir vender as saladas.

Odiava aquilo. Odiava o padrasto, que sempre espancava sua mãe quando bebia. Gostava de estudar, tirava boas notas e sonhava em ser escritor. Mas desandava nos estudos quando as coisas iam mal em casa.

A única maneira que Pedro encontrava para se vingar do cara que batia em sua mãe era não vender as saladas de fruta, mesmo que isso significasse ficar sem o dinheiro da energia ou do gás.

Sabia que as saladas eram bem preparadas por sua mãe, que após chegar tarde do emprego de auxiliar de enfermagem no Hospital das Clínicas tinha de arrumar o jantar do seu macho e as saladas para ele vender no dia seguinte. Mas Pedro deixou de sentir pena da mãe. Disse que ela parecia não se importar com os porres do cara, que havia se acostumado com as porradas.

O garoto falou que o ódio cresce a cada dia. Tem vontade de matar o padrasto. Enquanto esse momento não chega, ele descarrega a raiva escrevendo. Falei que queria ver suas anotações e Pedro me prometeu trazer o caderno quando viesse trabalhar novamente. Provavelmente amanhã, já que seu padrasto poderá repetir a dose hoje.

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Democracia etílica

Acabei de lembrar a história de um escritor louco judeu. Ele percorria as ruas da cidade com uma gaiola na mão. Dizia que ia caçar ratos judeus. Era como se eu andasse por ai com uma gaiola imaginária nas mãos. Só que eu não sabia exatamente o que caçar.

Cheguei do trabalho e dei uma rápida passada em casa. Ainda no caminho, estranhei uma mendiga que andava na rua importunando todo mundo. Era uma negra com uns trapos imundos. Vestia shorts curtos e tinha belas coxas. Diminui o passo para não passar pelo seu lado. Ela acabou atravessando a rua.

Deixei uns papeis em casa e desci até o bar. No caminho, encontro novamente a mendiga louca. Desta vez ela estava revirando uma lata de lixo, caçando seu jantar. De vez em quando ela parava de mexer no lixo e começava a discutir com a lixeira. Deixei para lá e segui meu rumo.

Gosto do boteco, pessoas de todos os tipos. Velhos que bebem para esquecer ou relembrar, comemorar ou lamentar. O porteiro de um prédio acabou de entrar. Estava vestindo o uniforme de trabalho e um pouco bêbado também. Timidamente ele tirou um vale transporte do bolso, chamou o cara do balcão, lhe mostrou o vale e suplicou por uma dose de pinga. O rapaz deve ter ficado com pena e serviu uma dose. O porteiro bebeu e foi embora.

Um cara da mesa ao lado começou a rir da cena. Ele também estava bêbado. Também havia sido porteiro. Foi demitido por trabalhar bêbado. Hoje ele continua tomando as dele.
A mendiga louca também apareceu por lá. Seu fedor paralisou o boteco. As conversas cessaram e todos ouviram ela pedir uma dose de pinga em um copo descartável. Pagou com algumas moedas e foi embora. As conversas se restabeleceram.

Enquanto o porteiro bebe para afastar o tédio de várias horas sentado em uma cadeira, o jornalista bebe para relaxar após um dia de estresse. A mendiga louca toma umas de vez em quando só para diminuir a fome. Cada um com sua desculpa. Viva a democracia etílica.

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Sarah e Campeón

Sarah era uma aplicada aluna de equitação. Após as aulas, sempre ia com o professor até o estábulo para guardar o cavalo. Ela gostava de cuidar pessoalmente do andaluz - presente de seu pai, que batizou o animal de Campeón.

Após as aulas, Campeón sempre era lavado e escovado por Sarah.
Com os seres humanos, a menina não costumava ter tanta afinidade. Ela era um pouco calada, falava apenas o essencial. O irmão, único companheiro de brincadeiras, há alguns anos não fazia mais parte de seu dia-a-dia. Sarah estava com 17 e ele com 14, idade em que geralmente os meninos deixam de brincar com as irmãs para jogar futebol ou para acompanhar seus pais em caçadas pelo mato. Inicialmente ela sentiu a ausência do irmão. Mas logo ele foi substituído por Campeón e as aulas de equitação.
Ela cursava o último ano do segundo grau. Às vezes, deixava de ir ao colégio para passar algumas horas com o cavalo. Em uma sexta-feira chuvosa, ao entrar no estábulo para pegar ração, o caseiro Emanuel conta que viu uma cena estranha.

- Eles estavam fazendo relação.
- Como? – perguntei.
- Ah, muito estranho. Enquanto ela segurava o troço do cavalo, metia a mão entre as pernas.

Preferi não ouvir mais detalhes. O caseiro diz ter ficado com a cena na cabeça durante um bom tempo. Acabou que decidiu contar ao patrão. “E como eu ia falar pra ele uma coisa dessas? Rapaz, pensei muito. No fim eu disse que ela estava mimando demais o cavalo e perdendo aula no colégio por conta disso”.

Os pais de Sarah decidiram vender Campeón o mais rápido possível. Não queriam que a filha se prejudicasse nos estudos. No dia em que soube da notícia, Sarah entrou em desespero. Mas ela não fez muita questão de demonstrar isso. Apenas se trancou no quatro. De madrugada, a menina matou os pais com tiros de espingarda. Assustado, o irmão de Sarah correu até o local. Levou um tiro no peito e acabou como os pais.

Emanuel encontrou Sarah pela manhã. Ela estava sentada em uma poltrona na sala, com a espingarda ainda na mão. Ele subiu as escadas e encontrou o corpo do menino estirado no corredor. “Meu pais também, no quarto”, disse Sarah lá de baixo. O caseiro saiu correndo até a cidade, em busca de ajuda. Voltou duas horas depois, com os policiais. Sarah ainda estava imóvel, na poltrona da sala.

Ela foi internada em uma casa de recuperação psicológica para jovens. Emanuel deixou o povoado para ser porteiro em meu prédio. Antes de subir para o apartamento, decidi fumar um cigarro e acabei puxando conversa com ele. O papo chegou nesta história. Sarah completa 21 anos amanhã e estará em liberdade.

- E agora, será que ela irá procurar por Campeón? – perguntei meio que em tom de brincadeira.
- Se for, irá perder tempo. Eu o matei antes de vir para cá.

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

Algumas cervejas e um revólver na cintura

Tomei cerveja com um assaltante. Agora, ao menos ele poderá pensar duas vezes antes de me roubar, eu espero. Acompanhei grande parte de sua adolescência nas ruas. Vivia pedindo comida por ai e de vez em quando dormia e passava o tempo perto do prédio onde eu moro. Era mais uma criança que cheirava cola para aliviar a fome. Hoje ele cheira cocaína para criar coragem antes dos assaltos.

Conversei com ele pela primeira vez enquanto eu tomava algumas cervejas e observava o movimento da rua, sentado em um banco na calçada. Ele chegou e me pediu um cigarro. Agora não lembro o que conversamos naquela ocasião. Mas passamos a nos encontrar várias vezes no banco. Quando eu estava bem, lhe dava algum dinheiro.

Ele sumiu por uns dez anos. Resolveu aparecer quando eu novamente tomava umas cervejas, desta vez no boteco da rua. O convidei para um copo.

- Saí da cadeia hoje. Estou na correria.
- Correria?
- É, vou ver se levanto algum dinheiro - explicou levando a mão no cabo de um revólver que estava na cintura, por baixo da camisa.

Ficou preso por tentativa de homicídio. Foi assaltar, o idiota reagiu e levou três tiros. Ficou preso por quatro anos. Não tinha pai, nem mãe. Recebeu visitas apenas de sua namorada. Nesse período ela acabou engravidando. Hoje sua filha estava com três meses de idade e ele não queria voltar para casa sem dinheiro. O quê a menina iria comer?

O lembrei que para isso ele poderia trabalhar. Mas ninguém estava muito disposto a empregar um ex-presidiário. Eu lhe disse para tentar algum programa do governo. Ele respondeu que para isso precisava conhecer algum funcionário público e disse também que o dinheiro pago por esses programas era muito pouco. Desisti, o cara queria era viver roubando mesmo.

Já havia sido preso outras duas vezes. Uma delas foi por ter dado três tiros em um cara que zombou de sua deficiência nas pernas. Ele andava como um macaco e foi exatamente isso que sua vítima disse. “O cara levou a mão no peito e tossiu sangue”, lembrou, levando mais uma vez a mão na cintura. Ele estava animado e com certeza assaltaria alguém antes de ir para casa. Poderia até ser preso naquela noite e nem sequer ver a filha. Mas acho que ele não considerava muito essa hipótese.

Ele disse que entrou no mundo do crime por engano. Aos 12 anos, deixou as ruas para morar na casa de uma família. Ele conheceu inicialmente o filho do casal, ficou amigo do garoto e ganhou um lar por algum tempo. “Na época tinha acabado de sofrer um acidente e não sabia o meu nome, nem o dos meus pais. Daí eu comecei a usar o nome do meu amigo, Rafael. Dizia que era irmão dele”.

Mas tudo isso durou pouco tempo. Meses depois, quando já estava novamente nas ruas, foi abordado por policiais. Mais uma vez, disse que se chamava Rafael. Os policiais passaram um rádio para a delegacia e minutos depois constaram que Rafael era um homicida. “Paguei por um crime que não cometi”, dizia ele enquanto bebia a minha cerveja. Não acreditei naquela história. Paguei a conta e fui embora. Ele ainda me pediu alguns trocados para o ônibus. Não ia assaltar alguém para conseguir dinheiro?, pensei comigo. Achei melhor ajuda-lo a ser vítima. Se um dia ele não me reconhecer e resolver me roubar, direi: “Ei cara, já tomamos cerveja juntos”.

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Pombos e famintos

Povo miserável. Ninguém vê nada, ninguém ouve, ninguém faz nada. Uma família de desabrigados. Crianças no colo do pai e da mãe. Provavelmente acabaram de chegar na cidade. Vieram de alguma das várias regiões miseráveis do país. Seus rostos revelam sujeira, fome, doença, qualquer coisa ruim. Pedem uma moeda para cada um que passa pela calçada. Ninguém vê nada, ninguém ouve, ninguém faz nada. Povo miserável.

Lembro de uma reportagem que eu fiz na época do jornal. Fui para uma ponte que passa em cima de um rio. Estava à procura de sujeiras, poluição ou qualquer outra coisa que agredisse o meio ambiente. Dei sorte, encontrei tudo isso. Também encontrei uma família de desabrigados. Moravam há cinco anos debaixo daquela ponte. Vieram para a cidade em busca de emprego, mas, infelizmente, se sentiram familiarizado demais com o lugar. Só encontraram miséria e fome, algo que eles já conheciam muito bem antes de desembarcar na ponte.

Conversei com eles. Um deles até posou para o fotógrafo. Ele segurava um saco de lixo, ou tirava o lixo do rio, alguma coisa assim. Rendeu uma boa foto. No final eles me pedem para não esquecer aquela situação. Levar alguma comida em uma outra hora, se possível. Um feijão, arroz. "A coisa está feia. A gente passa fome", disse um deles. Até seres mais escrotos do que eu conseguiria se comover. Até que saí pensando em retornar no final de semana, com alguma comida. Nunca mais voltei. Vi, ouvi, e não fiz nada. Ou melhor, explorei ainda mais a miséria deles, com direito a foto na capa do jornal e tudo.

Volto à outra família, a que pedia moeda na calçada. Tenho uma outra chance. Vi, ouvi. Pensei em voltar e dar uma moeda, mas continuei em frente. Parei na padaria, comprei cigarros e aquela família ainda estava lá. Alguém irá fazer alguma coisa, algum dia? Acho que não. "Não podemos sustentar a miséria desses mendigos. Eles têm de trabalhar. O governo também é responsável por eles". Hehe, piada de mau gosto.
Já que o governo não faz nada, poderia ao menos distribuir para a mendigada crack, cola, ou outra coisa que mate mais rápido - nossos governantes adoram soluções pragmáticas e comemorar resultados. O governo anunciaria um aumento no índice desenvolvimento humano e a imprensa reproduziria tudo. Nas eleições apareceria algum candidato elogiando as ruas sem mendigos (porém ainda feias e sujas).
A sociedade também celebraria e todos poderiam viver sem o peso na consciência de não fazer nada, se é que alguém tem um fardo deste tipo. Olho para uma placa de trânsito e vejo um casal de pombos trepando, dando uma rapidinha. Fico mais animado, dou uma risada e pego meu ônibus. Esses pombos...

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

Ruídos pela rua - prestando atenção na conversa alheia

Mulher ao telefone: Nem que eu fique sem ver o Tiago por um ano. Se você quer briga, você terá

Casal em uma parada de ônibus

Homem: Rapaz, tá muito quente este sol. "No Estados Unido" tem é muita gente morrendo. É o efeito estufa. É ví na internet. Fui lá e digitei biodiversidade.
Mulher: uhm - hum (muito interessada.)

Duas meninas no centro da cidade, vendo as mercadorias dos ambulantes:
Menina 1: Mas eu já estou cansada do corpo mole dele. A gente lá, toda disposta e nada.
Menina 2: Ah, que é isso. Parte para outro amiga. Tem um monte ai querendo prestar serviço.

uma senhora e um rapaz alto no ônibus

Senhora: mas eu preciso dá um fim nele. A gente fica com pena, né? Mas é melhor. Ele está sofrendo muito
Rapaz: tenta misturar o veneno na comida que funciona.

Notícia em primeira mão:

Encontrei com um velho amigo de profissão pelos bares da cidade. Ficamos sem assunto e decidi contar sobre Drina. Ele disse que a história da prostituição saudável renderia matéria. Falei que ia conversar com ela. Mas acho que Drina não irá topar. Inútil tentar algo. Vou ligar para o cara e dizer que ela não está interessada em dar entrevista.

Daqui de cima

Comprei binóculos para algumas horas de voyeurismo na cobertura do prédio. Esta história de flagrar fornicações e orgias sexuais nos apartamentos é lenda urbana. Nunca achei nada. Daqui de cima vejo donas de casa fazendo as unhas, empregadas limpando as janelas, adolescentes jogando vídeo game e pais de família bebendo cerveja e fumando cigarros.

A única visão interessante é a de uma adolescente que sai do banheiro com a toalha enrolada no corpo. Mas ela sempre fecha as cortinas para se trocar. Quando a coisa está esquentando, um balde de água fria.

Para fugir da rotina, há algumas brigas de casais de vez em quando. Um tapa na cara, uma ida na cozinha para pegar uma faca. Mas o barulho chama a atenção dos vizinhos, que devem ligar para os policiais. Eles aparecem antes da coisa esquentar de vez. Um balde de água fria.

Uma vez, houve algo curioso. Meus binóculos sempre achavam uma velha gorda, com uns 70 anos, na varanda de um dos últimos andares do prédio em frente. Ela ficava horas por lá, olhando para o nada. Um dia, ela decidiu olhar para a cobertura do meu prédio. Me flagrou e após alguns segundos entrou no apartamento. Mais ou menos uma semana depois, quando eu ia até a padaria, acabei encontrando com a velha. Ela parou na minha frente e me reconheceu.

- É boa a visão lá de cima?

Sem me dar tempo para responder ela emendou:

- Acho que vou comprar aquelas lentes também. Você poderia ir lá em casa e me ensinar a usar essas coisas.

Sorri e fui embora. É cada uma que me aparece.

Domingo, Agosto 06, 2006

Pausa para - esquetes

Pensei em alguns esquetes enquanto tomava umas cervejas na cobertura do prédio. É um local abandonado, com uma piscina desativada e um monte de pombos. É interessante porque é calmo, dá para ver o movimento nos apartamentos dos prédios ao lado e relaxar. Subo lá sempre quando estou de saco cheio. Mas enfim, vamos os esquetes. As imaginei como tiras de quadrinhos também.

1 - Burocracia

Cena: Rapaz aguardando atendimento em um guichê, como se estivesse em um banco. Há dois guichês, mas apenas um com uma atendente.

Rapaz: Oi, boa tarde. Eu gostaria de protocolar isto aqui.
Atendente: Ah, protocolo é feito apenas no guichê ao lado, que estaremos abrindo dento de uma hora.
Rapaz: Ah, tá.

O rapaz espera e a atendente fica olhando para o nada. Uma hora depois, a atendente fecha o guichê (pendurando uma placa onde se lê FECHADO) e abre o outro, o do protocolo.

Rapaz: Mas é você. Não podia ter apenas carimbado esses papéis há uma hora? Era só pegar o carimbo ai ao lado...

Atendente: O carimbo só está disponível após às 16h, senhor. São as normas e eu as respeito.

2 – Contra a violência

Cena: Passeata de pacifistas. Coro: Pare a violência, pare a violência!

Confusão entre os manifestantes. Os policiais intervêm. Porrada geral.

3 - Corruptos

Cena: Dois homens de terno e valises conversam. Poderiam ser políticos.

Homem 1: O pessoal da Corporation S.A. não vai mais aceitar a propina.

Homem 2: (Voz abafada) Não diga esta palavra. Diga contribuição.

Silêncio.

Homem 2: Êh, a sociedade está se moralizando.

Os dois dão gargalhadas

Homem 1: Já acertei com o pessoal da Members S.A. . Eles irão colaborar, bem mais.

4 – Combate à pobreza

Cena : Mendigo pede dinheiro na calçada. Um grupo de jovens se aproxima

Mendigo: Me dá uma esmola, pelo amor de Deus.
Jovens: Esmola ô caralho!

Enquanto espancam o mendigo, os jovens dão risadas.

5 – Combate à fome

Cena: Mendigo decide agora pedir comida. Uma família passa pela calçada. A criança tem metade de um sanduíche nas mãos.

Mendigo: To com fome, to com fome!

Aparece um cachorro perto do mendigo.

Criança: Olha mamãe, o áu-áu!
Mãe: Está bom minha filha, vamos para o outro lado da rua!

A criança joga o sanduíche para o cachorro. O mendigo avança no sanduíche e no cachorro.

6 – Combate ao analfabetismo

Cena: Funcionários do governo decidem visitar uma boca de fumo.

Funcionário: Oi, seu traficante. Nos somos da secretaria de educação e viemos incluir o senhor no programa bolsa escola. Daí, o senhor libera a meninada da comunidade para as aulas, pode ser?

Traficante: Opa, beleza. Pode ser. Mas pela tarde eles vão fazer um estágio aqui na boca.

Sábado, Agosto 05, 2006

Drina - continuação

- Geralmente perguntam primeiro quanto é...

Silêncio. Enquanto isso eu dirigia.

Parei em um posto e comprei algumas latas de cerveja.

- E então?
- O que?
- O que você quer, cara?
- Vamos tomar uma cerveja e conversar. Na verdade não tenho dinheiro para um programa.
- Ah, não. Que merda cara. Me dá uma carona para perto do centro, pelo menos.


Adriana, ou Drina. Prostituta, 28 anos. Começou a carreira em um barzinho, aonde também trabalhava como atendente. Contava com a ajuda de dois irmãos no negócio. Próximo ao horário de fechamento do bar, puxava conversa com algum cliente. Às vezes o papo acabava em uma trepada atrás do balcão. Gorjeta gorda garantida.

Foi quando percebeu que seria mais lucrativo ganhar a vida se profissionalizando na área. Durante o dia ela trabalha em uma clínica que atende homens com disfunção erétil e problemas com ejaculação precoce. Após passar pelo médico, o paciente é acompanhado até uma sala onde Drina realiza alguns procedimentos. Sexo com quem entende do assunto, aconselhado por médicos. E tudo com segurança. Drina e outras prostitutas recebiam acompanhamento médico periodicamente, entretanto, elas tinha de assinar um contrato comprometendo-se a não se prostituir mais nas ruas (o que Drina ainda fazia). Tudo isso era para o bem estar do paciente, para que ele crie mais confiança e trate seu problema, que às vezes é apenas falta de bom sexo. Uma história de vida interessante. E este negócio de prostituição medicinal poderia virar matéria em algum jornal.

- Tem uma frase que aprendi com um mendigo: A vida é um barco de merda em um mar de mijo, sendo levado por um vendaval de pêido. Hahahaha.

Adorei o sorriso dela. Mas não me entreguei e fui sacana:
- Com um mendigo? Você cai o nível assim?
- Não dei para o cara, seu idiota.

Silêncio.

- Já que pelo jeito vou ser sua psicóloga, vamos lá. E você, o que faz da vida?

Preferi não responder. Não tenho paciência para falar sobre meu trabalho com outras pessoas. Dei um beijo, prolongado. Depois lembrei das histórias que ouvia de outros homens que pegavam putas. Muitos deles não as beijavam. Mas não me arrependi de ter dado o beijo. Tanto que acabamos no meu apartamento. Dormimos juntos. De manhã meu hálito estava uma porcaria. Muita cerveja e cigarro. A beijei novamente e ela não reclamou. Perguntou se tinha café. Fez um bem forte amargo. Fumamos mais uns cigarros e ela foi embora.

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

Drina



- Caralho, que puta gostosa! Dmitri, Dmitri? - disse um velho conhecido próximo ao balcão.
- Puta que o pariu! - pensei.

Será que realmente era uma puta? Bem, uma mulher vestida daquele jeito, naquele local e naquela hora só poderia ser uma puta. (Há um “puta” em cada linha. Tentarei ser mais sutil...). Talvez não era uma de carreira, mas de estilo de vida. Ou seria um travesti? Nunca se sabe.
Não que eles sejam tão atraentes quanto uma mulher. A questão é que tudo estava muito explícito. Assim como as prostitutas, os travestis também são explícitos. Eu tinha de tirar essa dúvida. Curiosidade jornalística, hehe. Fiquei excitado e tudo mais. Deixei o bar e fui pegar o carro.

Cheguei perto, buzinei e a coisa deu uma olhada. O rosto era bem feminino, muito bonito por sinal. Pedi para se aproximar. Coloquei as mãos entre suas pernas e era uma mulher. Que alívio! Surgiu então outros problemas. Ela era mulher, gostosa, puta e poderia me envolver demais com a fonte. Tudo isso é igual a dinheiro, o que eu não tinha no momento.
Seres anônimos no meio do nada. Uma “abordagem” e uma pequena “entrevista” para saber um pouco mais sobre ela.
- Qual o seu nome?
- O que?
- O seu nome...
- Ah, é Drina.