Salada de fruta
- Tá fresquinha a salada de fruta?
- Na verdade, não tá não, senhora.
A banca ficava perto do ponto de ônibus do bairro. Antes era apenas um cara mais velho e mal encarado que tomava conta do local. Nunca havia visto aquele garoto por lá.
O vendedor ambulante mais sincero que vi, hehe. Ao ouvir sua resposta, me aproximei para uma conversa. Seu nome era Pedro. Ele estava lá substituindo o padrasto. Toda vez que o cara exagerava na bebida acordava com ressaca no dia seguinte e indisposto para o trabalho. Pedro faltava o colégio para ir vender as saladas.
Odiava aquilo. Odiava o padrasto, que sempre espancava sua mãe quando bebia. Gostava de estudar, tirava boas notas e sonhava em ser escritor. Mas desandava nos estudos quando as coisas iam mal em casa.
A única maneira que Pedro encontrava para se vingar do cara que batia em sua mãe era não vender as saladas de fruta, mesmo que isso significasse ficar sem o dinheiro da energia ou do gás.
Sabia que as saladas eram bem preparadas por sua mãe, que após chegar tarde do emprego de auxiliar de enfermagem no Hospital das Clínicas tinha de arrumar o jantar do seu macho e as saladas para ele vender no dia seguinte. Mas Pedro deixou de sentir pena da mãe. Disse que ela parecia não se importar com os porres do cara, que havia se acostumado com as porradas.
O garoto falou que o ódio cresce a cada dia. Tem vontade de matar o padrasto. Enquanto esse momento não chega, ele descarrega a raiva escrevendo. Falei que queria ver suas anotações e Pedro me prometeu trazer o caderno quando viesse trabalhar novamente. Provavelmente amanhã, já que seu padrasto poderá repetir a dose hoje.