Quarta-feira, Março 21, 2007

Tenório

“Amanhã eu vou sair mais cedo. Vou ver se consigo um dinheiro emprestado”, disse Tenório para sua esposa e os dois filhos, um de oito e o outro de onze, que estavam na sala. O terceiro, de quatro anos, estava no quarto sob cuidados da tia. Estava doente, uma doença ai que os médicos da região não conseguiram diagnosticar.

Cedo, Tenório foi até o local onde guardava os bagulhos, pegou seu “trêsoitão” e foi atrás do empréstimo. Dias antes, havia escutado uma conversa no bar. Dinheiro fácil: chegar em alguém que faz frete para a cidade, combinar uma viagem e assaltar o motorista no meio do caminho.
Tenório estava desesperado. Desempregado há mais de um ano, só havia estudado até a quarta série e ainda tinha cinco bocas para alimentar, os filhos, a esposa e a irmã dela. Antes conseguia fazer uns bicos, mas nem isso tinha mais. Não pensou duas vezes, nem ao menos para quem vender o carro roubado. Poderia até ter vendido a arma, seria menos arriscado e ainda conseguiria uma grana.

Naquela manhã, pegou o 38 que usava para proteger a casa dos malandros da região e foi atrás de seu frete. Bateu na porta de uma casa onde se lia: “Fazemos frete”. A camionete estava estacionada na garagem. Um senhor veio atende-lo.

Combinaram um preço e Tenório disse que só poderia pagar quando chegassem no local da “mercadoria”. Inicialmente, o velho dono da camionete não aceitou a proposta. Quando Tenório estava prestes a desistir do frete, o senhor deu o braço a torcer. Chamou o filho e o pediu para ir com o cliente.

Partiram para a cidade.

Tenório estava nervoso, tentando lembrar se a arma estava carregada. Geralmente a guardava sem munição. Porém, ao mesmo tempo pensava: se fosse necessário usar apenas uma bala estaria mais encrencado do que nunca.

Estavam na estrada já há uns 20 minutos quando Tenório decide. “Estou passando mal. Pare o carro, por favor”. O rapaz, que já estava desconfiado do nervosismo de Tenório, finge não escutar. Tenório tenta mais uma vez: “Você não quer que eu vomite aqui no carro, quer?”.

O carro para. Tenório saca o revólver e anuncia o assalto. O rapaz sai correndo da camionete com as mãos para cima e Tenório assume a direção. Passa a guiar, sem rumo. Nem ao menos se lembrou de revistar os bolsos do rapaz, que após o susto ligou para o pai de seu celular. Passou a localização do assalto e minutos depois Tenório é parado em uma barreira policial.

Na delegacia, recebeu a visita do delegado e de alguns jornalistas. No início tentou fazer jogo duro para receber a comitiva. “Falar o que? Não adianta mais nada. A merda já está feita”. “Fala rapaz, conta a sua história”, aconselhou um companheiro de cela, preso por não pagar pensão alimentícia à mulher e o filho.

Tenório acabou falando e, logo em seguida, chorando como uma criança. Lembrava dos filhos passando fome. Conseguiu comover a todos. Mas a merda já estava feita.

Sábado, Março 17, 2007

Cachorros famintos

E a violência nas calles continua solta. Esses dias, a mulher que aparece aqui de vez enquando para limpar o apartamento estava me contando um caso, aconteceu lá perto de sua casa. Crime passional, bizarro. O marido traído arrancou a orelha da companheira. Coisa bem vangoguiana, de primeira.

O desfecho que não foi muito artístico. A orelha foi jogada na rua. Depois, peritos da polícia e a própria dona da orelha tentaram encontrar o pedaço de carne. Não acharam nada. A moça que limpa o apartamento tem uma hipótese: "Lá tem muito cachorro, sabe como é? Vai ver eles comeram a orelha da moça. Os cachorros de lá são tão magrinhos".

Terça-feira, Março 06, 2007

Raimundinho e Virgínia

Bêbado em uma segunda-feira. Havia um bom motivo. Um encontro a última das ex-esposas. Sem filhos, ambos sem potencial para continuar um relacionamento de dez anos e ambos com muito ânimo para tomar todas.

Ela me falou o tempo todo de um amigo da Polônia, ou era da Eslováquia, sei lá. “Baby, casa com ele”, sugeri. Sei que ela me deixou em casa e fui tomar umas no boteco do Raimundinho. Estava próximo do fechamento, mas ele ainda me serviu umas doses.

A vitrola começou a tocar uma música. “Sei que eu errei e estou aqui para te perdi perdão, cabeça louca coração na mão, desejo pegando fogo...”. Todos do bar se foram. Restaram Raimundinho e eu. E ele colocou novamente a mesma música. “Sei que ai dentro ainda bate um pedacinho de mim...”.
Foi quando ele me contou sua história. Ele estava com 16 e ela um ano mais nova. Era uma festa das boas e ele já estava bêbado, de cabeça baixa em uma mesa. Então Virgínia chegou e perguntou se ele estava bem. Depois, ela convenceu o pai a dar uma carona aquele garoto bêbado.

Raimundinho chegou em casa sem lembrar de nada, tomou um banho gelado e esperou acordado dar seis horas da amanhã para ir trabalhar. Ressaca brava.

No fim de semana decidiu ir a praia com sua moto. Encontrou Virgínia no caminho. Aliás, ela o encontrou e o fez parar a moto. “Fiquei sabendo que você gosta de gibi”, perguntou a moça. O namoro começou com essa pergunta. O casamento começou com uma gravidez. Ele apareceu bêbado no casamento, vestindo uma bermuda, camiseta e calçando sandálias.

- Você vai se casar comigo assim? – perguntou ela.
- Sim, do jeito que eu sou – respondeu o noivo.

O pai de Virgínia ainda via Raimundinho como um moleque bêbado de 16 anos, dormindo em uma mesa. Mas mesmo assim houve casamento. Tiveram dois filhos, um menino e uma menina. Viveram juntos por 14 anos, até Raimundinho traçar a melhor amiga de Virgínia, uma ninfeta de 17 anos. Acabou a engravidando também. Desta vez, foi pai de gêmeos.

E no fim da noite, Raimundinho pensava em Virgínia e cantava: “Ai se eu fosse você, eu voltava pra mim de novo...”.