Poucos assistiram
Assistiram à estréia do Brasil nas Eliminatórias, aquele 0x0 contra a Colômbia? Não importa. Gostaram? Também não importa. Daniel “Papelão” adorou, vibrou a cada lance. Torceu como ninguém para não sair gol; nem do lado do Brasil, nem do lado da Colômbia.
Daniel, 46, é pernambucano e mora do Distrito Federal há 20 anos. Já cortou cana, trabalhou na roça. Hoje possui um carro e um emprego. O carro não é bem um carro, é uma carroça. O emprego não é bem “o emprego”. Puxando sua carroça ele cata papelão, dentre outras coisas que vão para o lixo. Frascos, embalagens de plástico, alumínio, sucatas em geral.
Seus filhos, Mateus, 16, e Rafaela, 10, dependem exclusivamente da renda do pai. Além de alimentá-los, Daniel paga o aluguel de uma casa no entorno do DF onde vivem a esposa, Mateus e Rafaela. São R$250 por mês. Daniel só volta para casa quando dá, geralmente nos finais de semana. “São sete reais de passagem. Às vezes nem ganho isso em um dia de trabalho. Quando não dá para ir embora eu durmo na rua (ruas de Taguatinga - DF)”.
Como todo brasileiro fã de futebol, Daniel parou em frente à uma tevê no último domingo (14/10) para assistir à estréia da seleção nas Eliminatórias. A tevê em questão era de um barzinho com pouco mais de 20 torcedores. Algum deles teve a idéia de organizar um bolão. 4x0, 2x1, 3x1, 1x0, 5x2, 2x0...Todos os palpites indicavam vitória para a seleção de Dunga, Kaká, Ronaldinho e companhia.
Em um canto, tomando vagarosamente uma dose de pinga, Daniel ouvia os palpites. Colocou a mão no bolso, tirou cinco reais dos nove que havia na carteira e apostou em um 0x0. O único, por sinal. Durante o jogo, todos lamentavam cada ataque desperdiçado, criticavam o técnico Dunga, os jogadores. Daniel continuava quieto em seu canto.
No apito final, Daniel comemorou como uma criança. Alguns que não tinham conhecimento do bolão não entendiam aquela cena. Os que participaram não lamentaram ter errado o palpite. Comemoraram a vitória de “Papelão”, vitória justa com um 0x0.
Daniel ainda fez questão de pagar uma dose de pinga para um ou outro amigo com os R$45 do prêmio. Sem acreditar em sua façanha, Daniel falava para todos do bar: “Amizade não tem preço. Tenho muitos amigos por aqui. Pessoas que reconhecem o que eu sou, que reconhecem minha luta. Aqui é meu único momento de lazer. Amizade não tem preço. Dinheiro vale quando é na luta e na fé. Eu tive fé e apostei. Vou ajudar meus filhos com esse dinheirinho. É pouco, mas para mim é muito”.
No dia das crianças, sua filha lhe pediu uma bicicleta. “Filhinha, o papai não tem dinheiro para comprar uma bicicleta agora, mas ele vai trabalhar mais para te dar uma, tá” – foi o que “Papelão conseguiu responder”. O filho queria um tênis, o que Daniel também não conseguiu comprar.
Daniel “Papelão” diz que sempre foi feliz. “Todo dia eu puxo esse carrinho, para cima e para baixo. A vida é dura para quem é mole. Ninguém nunca deve desistir de viver. É como um jogo; às vezes você ganha, perde ou empata. E segue em frente”.